MIOSTATINA

06/04/2010 08:32



MIOSTATINA
"A miostatina é um gene que regula negativamente o crescimento muscular, ou
seja, ela limita o tamanho do músculo, tanto pela atenuação da hipertrofia quanto da
hiperplasia. Ainda não se sabe ao certo como a miostatina atua, podendo ser pela
indução da morte das células, inibição da proliferação de células satélites e/ou
diretamente no metabolismo protéico."
Estudos em animais
Em 1997, MCPHERRON et al fizeram um experimento interessante e obtiveram
uma descoberta surpreendente. Através de manipulação genética os pesquisadores
produziram ratos com deficiência no gene GDF-8 (miostatina) e verificaram que os
animais "deficientes" eram muito maiores que os normais, com seus músculos
chegando a ser de 2 a 3 vezes mais volumosos, sem que houvesse um aumento
correspondente na gordura!!!!
Em animais de maior porte, como os bois, a inibição da miostatina não é tão
significativa quanto em ratos. Existem algumas raças que possuem naturalmente mais
massa muscular, como a Belgian Blue, a qual possui uma mutação genética que a leva
a ter de 20 a 25% mais massa muscular e uma menor quantidade de gordura
intramuscular e tecidos conectivos (dados citados por MCPHERRON & LEE, 1997). Estes
dados em animais podem levar a interessantes trabalhos no campo da engenharia
genética, no sentido de produzir animais maiores e com carne de melhor qualidade em
uma grande variedade de espécies, tendo em vista que a miostatina conserva suas
propriedades em diversos componentes do reino animal.
Estudos em humanos
Desta forma, tornou-se inevitável associar o ganho de massa muscular à
atividade da miostatina em humanos. Esta poderia ser uma explicação de como o fator
genético determina a composição corporal dos indivíduos em níveis musculares,
teorizando que pessoas com maiores atividades de miostatina teriam dificuldade em
ganhar massa muscular.
Um estudo feito em Estocolmo, na Suécia, mediu a quantidade de miostatina
em um grupo de homens saudáveis e dois de HIV positivos (um com perda de peso
menor que 10% e o outro com redução ponderal maior que 10% nos últimos 6 meses).
De acordo com os resultados há uma correlação negativa entre a miostatina e
quantidade de massa magra, tanto em indivíduos saudáveis quanto HIV positivos,
dando suporte à teoria de que a miostatina seja inibidora do desenvolvimento
muscular (GONZALEZ-CADAVID et al, 1998). Outros estudos também verificaram
maiores atividades da miostatina em estados catabólicos induzidos por períodos
prolongados de imobilização, como estados de leito (ZACHWIEJA et al, 1999; REARDON
et al, 2001). Mais recentemente também foi verificada uma maior atividade de
miostatina em idosos, atribuindo um possível papel deste gene na sarcopenia (perda
de massa muscular) (MARCELL et al, 2001; SCHULTE et al, 2001).
Os maiores níveis de miostatina em portadores do vírus HIV (GONZALEZCADAVID
et al, 1998), atrofias crônicas (ZACHWIEJA et al, 1999; REARDON et al, 2001)
e idades avançadas (MARCELL et al, 2001; SCHULTE et al, 2001) fazem surgir
especulações acerca das aplicações terapêuticas que a inibição da atuação da
miostatina podem ter em estados catabólicos induzidos por diversas patologias.
Em 2000, IVEY et al publicaram um estudo, no qual procurou-se verificar os
efeitos da miostatina nos resultados obtidos com o treinamento de força. O estudo
envolveu um treinamento de musculação de 9 semanas, com uma metodologia similar
ao drop-set, tendo 4 grupos: homens jovens, homens idosos, mulheres jovens e
mulheres idosas. De acordo com os resultados os diferentes fenótipos de miostatina
não influenciaram na resposta hipertrófica ao treinamento de força quando os
resultados de todos os 4 grupos eram analisados em conjunto, porém houve uma
tendência para maiores ganhos de massa muscular em mulheres com um determinado
genótipo. Estas conclusões podem gerar dúvidas quanto à influencia da miostatina na
resposta normal ao treinamento de força.
A descoberta deste gene trouxe reações em diversos segmentos: os
profissionais da saúde procuraram uma maneira de reverter o catabolismo gerado por
estados patológicos e pelo envelhecimento; os pecuaristas visualizaram uma forma de
aumentar seus ganhos, produzindo animais maiores, e alguns segmentos do esporte
procuraram uma maneira de obter melhores resultados desportivos e estéticos.
Como era de se esperar, muitas indústrias de suplementos alimentares se
prontificaram a lançar no mercado substâncias que prometem atenuar os efeitos da
miostatina e, desta forma, romper as barreiras genéticas do ganho de massa muscular,
porém creio que isto seja improvável de acontecer, pois dificilmente um destes
produtos produzirá a mágica de inibir a atuação deste gene e se isso ocorrer, os
resultados podem não ser muito agradáveis, pois não podemos esquecer que todos os
movimentos de nosso corpo são controlados por músculos, incluindo os da fase e
outros locais que não costumamos lembrar quando pensamos em hipertrofia. Uma
inibição generalizada da miostatina poderia provocar desenvolvimento incontrolado
de todos eles, gerando um aspecto nada agradável.
Outro ponto que gerará questionamentos é a distante, porém real,
possibilidade da miostatina passar a ser manipulada em humanos mesmo antes do
nascimento, originando uma linhagem de "super-seres". Isto traz à tona a questão
ética da engenharia genética: até que ponto a ciência pode interferir no
desenvolvimento de um indivíduo?